Luciaadverse's Blog

março 24, 2010

A Pintura e a Fotografia

As respigadeiras

Ontem no Facebook do Claudio Edinger essa pintura chamou-me a atenção.

Trata-se de uma obra do pintor Jean-François Millet (4 de Outubro, 1814 – 20 de Janeiro, 1875). Pintor romântico e um dos fundadores da Escola de Barbizon na França rural. É conhecido como percursor do realismo, pelas suas representações de trabalhadores rurais. Junto com Courbet, Millet foi um dos principais representantes do realismo europeu surgido em meados do século XIX. Sua obra foi uma resposta à estética romântica, de gostos um tanto orientais e exóticos, e deu forma à realidade circundante, sobretudo a das classes trabalhadoras. Suas obras sobre camponeses foram consideradas sentimentais para alguns, exageradamente piegas para outros, mas a verdade é que as obras de Millet em nenhum momento suscitaram indiferença. Na tepidez de seus ocres e marrons, no lirismo de sua luz, na magnificência e dignidade de suas figuras humanas, o pintor manifestava a integração do homem com a natureza. Alguns temas eram tratados talvez com um pouco mais de sentimentalismo do que outros. No entanto, é nos pequenos gestos que se pode descobrir a capacidade de observação deste grande pintor. Nessa pintura, “As respigadeiras” (1857), Millet retrata três camponesas que trabalham na colheita. Não há nenhum drama e nenhuma história contada, mas apenas três mulheres camponesas em um campo. As respigadeiras são mulheres humildes que recolhem o que sobrou após a colheita dos proprietários de terra. Os proprietários e os trabalhadores são vistos na parte de trás da pintura. Millet aqui mudou o foco, o assunto mais importante seria aqueles que eram considerados parte inferior da escada social. Millet também não pintou seus rostos para enfatizar sua posição de anonimato e marginalização. Seus corpos curvos representam o trabalho difícil de todos os dias.

As pinturas de Jean-François Millet fizeram-me lembrar de uma foto da Nair Benedicto que conheci na casa de uma amiga em São Paulo. Minha amiga, também fotógrafa, há alguns anos é colecionadora de fotografias de Fine Art. Adquiriu uma bela coleção da fotógrafa Nair Benedicto, impecavelmente impressa na França pela La Chambre Noire. São 18 fotos digitalizadas com qualidade museológica, embaladas numa caixa especial. Lembro-me que quando peguei na coleção, logicamente com luvas, fiquei impactada com a beleza das imagens e principalmente com essa das camponesas. Analisando hoje, imagino, quem sabe, talvez o pintor François Millet pode ter influenciado ou não o olhar da fotógrafa Nair Benedicto no momento do registro dessa belíssima imagem. Quando tive essa fotografia em mãos, tive a sensação daquela imagem se parecer com uma pintura, o próprio papel com qualidade museológica transmite tal sensação. Essas semelhanças comprovam de como é importante o aprofundamento do estudo nas artes plásticas pelo fotógrafo. Os mestres da pintura com todo o estudo de perspectiva, profundidade, conhecimento e aprimoramento das técnicas, inspiram-nos em construirmos uma composição mais harmoniosa. Buscamos uma proximidade da composição perfeita que faziam com maestria.

Fotógrafa paulista, Nair Benedicto, nasceu em 1940 e foi a primeira mulher a participar de manifestações na década de 70, como as greves do ABC.  Formou-se em Rádio e Televisão pela Universidade de São Paulo em 1972, mesmo ano em que começou a fotografar profissionalmente, produzindo audiovisuais para a Alfa Comunicações. Em 1979, fundou a Agência F4 de Fotojornalismo juntamente com Juca Martins, Delfim Martins e Ricardo Malta, iniciativa pioneira que impulsionou o nascimento de outras agências. Ligada e atenta a temas sociais permitiu uma nova visão do fotojornalismo e da população brasileira sendo comissionada pela Unicef, durante 1988 e 89, para realizar a documentação sobre a situação da mulher e da criança na América Latina. Em 1991 desligou-se da F4 para fundar a N Imagens.

Seus trabalhos foram publicados nas revistas: Veja, IstoÉ, Marie Claire, Claudia, Ícaro, Vaccance, Stern, Paris-Match, BBC-Ilustré, Zoom, NewsWeek, Time, GeoMagazinbe, SouthMagazine, Nuova Ecologia, Ecos, Science, Figaro Magazine.

Suas fotografias integram os acervos do MoMa, de Nova Iorque, do Smithsonian Institute, em Washington, do MAM/RJ e da Coleção Masp-Pirelli. Realizou exposições em São Paulo, Rio de Janeiro e em outros países como França, Espanha, Cuba, Itália, Estados Unidos, Suíça, Equador e México.

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18 Comentários »

  1. querida Lucia, excelente este artigo sobre um dos artistas que deram origem ao impressionismo.
    muito obrigado pela aula!!
    beijos

    Comentário por Claudio Edinger — março 25, 2010 @ 7:16 am

  2. Querido Claudio,
    Obrigada você pelo generoso comentário!
    Seja bem-vindo ao meu blog!
    Um grande abraço, Lucia

    Comentário por Lucia Adverse — março 25, 2010 @ 9:02 am

  3. Excelente relação entre estes dois artistas, compromissados com o ser humano e o trabalho em sua essência primordial.
    Vale destacar que Van Gogh foi influenciado completamente por Millet, desde seus primeiros desenhos.

    Comentário por andré paiva — março 25, 2010 @ 9:15 am

  4. Oi André,
    Bem lembrado! Além do Van Gogh, Millet também influenciou Jules Bastien-Lepage. Pensei em comentar no blog, mas tive receio de perder o foco do assunto principal.
    Veja os camponeses de Jules Bastien-Lepage, clicando aqui.
    E também aqui.
    Gostei muito da visita e comentário!
    Volte sempre!

    Comentário por Lucia Adverse — março 25, 2010 @ 2:08 pm

  5. Primeira visita ao seu blog… muito interessante! Aliás, a relação com a pintura é algo que deveria ser resgatado, ou mais evidenciado quando existe – o Miro tem uma releitura do São Jerônimo Escritor, de Caravaggio, que é uma das coisas mais lindas que já vi.

    Grande abraço!

    Comentário por Alex Villegas — março 25, 2010 @ 7:07 pm

  6. Puxa Alex! Que interessante! Não conheço essa tela de Juan Miró, fiquei curiosa… Em qual museu ela está?
    Primeira visita? Espero que seja a primeira de muitas… rssss
    Obrigada pelo comentário!
    Um grande abraço, Lucia

    Comentário por Lucia Adverse — março 25, 2010 @ 7:51 pm

  7. É o Miro fotógrafo – acho que eu devia ter reforçado a diferença 😉
    De qualquer maneira, a foto está em http://www.mirofotógrafo.com.br, seção Pessoais, dentro de Portfolio. Um trabalho impressionante.

    até!

    Comentário por Alex Villegas — março 25, 2010 @ 11:12 pm

  8. Prezada Lúcia,

    Mais um ótimo post, bastante didático!

    Grande abraço,
    Ari

    Comentário por Ari Baiense — março 26, 2010 @ 11:16 am

  9. Muito interessante! Ressalto a “capacidade de observação deste grande pintor”, capacidade esta que faz a grande diferença entre as pessoas que usam a “caixa de brinquedos” em seu olhar e entre aquelas que usam a “caixa de ferramentas” como diria Rubem Alves.
    Ver como um artista vê não é para qualquer um, mas está a disposição de todos os que querem exercitar seu olhar.
    Gostei!

    Comentário por Eduardo Trauer — março 26, 2010 @ 11:36 am

  10. Kkkkk! Que lerdeza a minha! Vou dar uma olhada no trabalho do Miro!
    Obrigada pela indicação!
    Bjs

    Comentário por Lucia Adverse — março 26, 2010 @ 1:06 pm

  11. Obrigada Ari e Eduardo pela atenção e comentários!
    Um grande abraço, Lucia

    Comentário por Lucia Adverse — março 26, 2010 @ 1:08 pm

  12. Lucia,

    Parabéns pelo blog, pelo texto e pela sua sensibilidade de ver os paralelos. Eu insisto muito na importância de fotógrafos conhecerem pintura, pelo menos a história, e seu texto deixa evidente o ganho de “olhar” que isso acarreta.

    Grande abraço.

    Comentário por Geraldo Garcia — março 27, 2010 @ 1:54 am

  13. Lucia… cada vez vc me encanta mais com suas palavras… Fantastico esse post… um grande abraço!

    Comentário por leonardo sousa — março 27, 2010 @ 9:00 pm

  14. Oi Geraldo,
    Que bom você por aqui!
    Também gosto muito do seu blog, é muito instrutivo! Esse último post então sobre impressão está sensacional!
    Concordo com você sobre a importância dos fotógrafos conhecerem pintura. Além disso, percebo que uma bagagem cultural é importante para que trabalhos autorais tenham conceito. Habilidade técnica é muito importante, mas preocupar-se somente com ela, não traz conteúdo para os trabalhos.
    Obrigada pela visita!
    Volte sempre!
    Lucia

    Comentário por Lucia Adverse — março 27, 2010 @ 9:08 pm

  15. Oi Leonardo,
    Que gentil comentário!
    Obrigada por me prestigiar!
    Grande abraço, Lucia

    Comentário por Lucia Adverse — março 27, 2010 @ 9:09 pm

  16. As imagens do fotográfo Marc Ferrez que documentou o Brasil do século XIX já conquistaram notoriedade e respeito em muitos países, principalmente na França.
    Vale a pena conferir para todos que gostam de fotografia e história!!!
    http://www.magmalivros.com.br/loja/marc-ferrez-santos-panoramico.html
    Até mais!

    Comentário por Carine Arce — junho 10, 2010 @ 12:19 pm

  17. Belo post Lucia! Parabéns!!!

    Comentário por Juan esteves — março 16, 2014 @ 1:21 pm


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